set 21 2010

[Entrevista] Andrews F.G – Revista Eletrônica Souza Lima

Category: divulgação,entrevistas,matériaAndrews F.G @ 21:51

O rock nacional perdeu a identidade

Para Andrews FG, idealizador do projeto Rain Down e guitarrista da banda independente Refink, as grandes gravadoras apostam apenas na questão comercial

Por: Paula Witchert

O cenário do rock brasileiro já não é o mesmo. Longe de letras com conteúdo político e contestações ideológicas que normalmente marcam a juventude, o estilo traz no século 21 uma nova roupagem, mais preocupada com a questão visual. Segundo o guitarrista e webdesigner da Folha de S. Paulo Andrews Ferreira Guedis, ou simplesmente Andrews FG, “o rock foi enlatado como um produto jovem que não fala nada além de gastar e ir ao shopping. Virou uma coisa sem movimento, sem mensagem, apenas algo para ganhar dinheiro da molecada que gosta de ouvir um som. Bandas como CPM22 e o próprio movimento hard core mudaram bastante. Todos conhecem estas bandas e elas ganharam um caráter mais comercial quando foram para a mídia. Se você investigar quem lidera o estilo hoje, verá que são produtores que comandam também outras vertentes da música, como Kelly Key e etc. São apenas produtos.”

Idealizador e integrante do grupo independente Refink, Andrews diz que “a educação no país é tão complicada que o próprio termo música universitária é a resposta disso: é só uma tentativa de criar alguma coisa. O sertanejo que eu conheço é o de raiz, composto em Goiás com violão e não o Zezé di Camargo cantando É o amor. Já existia um mercado muito comercial na música e sempre foi muito descarado. O Pop brasileiro está aí para provar isso. O rock está do mesmo jeito, temos bandas aparecendo no Faustão e participando de quadros para falar sobre a família e a proposta do rock não era essa. Em outros países decaiu um pouco também, mas não tanto quanto no Brasil.”

As diferenças no rock em especial se mostram não apenas no comportamento dos grupos e do mercado, mas também nas letras, “as bandas atualmente não falam de problemas, mas sim de uma coisa lúdica do tipo, ‘tá tudo lindo’ e ‘deixa a vida me levar’; e as coisas não são bem assim. O Refink tenta mostrar a realidade de uma forma agressiva, mas é um grito nosso. As pessoas falam que nas letras há coisas com as quais elas se identificam”, defende Andrews.

Embora a mudança comportamental e musical dos novos grupos de rock seja visível se comparada aos anos 70 e 80, Andrews também atribui as dificuldades ao próprio cenário independente: “as casas de show só chamam bandas que lotam, não sei se é só no Brasil porque eu não conheço o espaço lá fora. Já aconteceu de cortarem o nosso som no meio por uma cota de cinco ingressos que não foram vendidos. Mas o espaço mesmo no cenário independente é muito difícil e o status comercial também. Hoje se ganha dinheiro com shows, mas para você conseguir tocar em algum lugar precisa ser conhecido, caso contrário tem que pagar ou vender ingressos. Se não vender, é tratado como amador.”

Uma das alternativas para um maior poder de escolha na hora de consumir música é a internet, “hoje todo mundo pode gravar suas músicas em casa e colocar na internet para as pessoas baixarem”, afirma Andrews. A questão colaborativa do mundo virtual ganha espaço e aos poucos cria um novo conceito de sociedade e diferentes formas de consumir música. O projeto Rain Down, liderado por Andrews – DVD show do grupo inglês Radiohead em sua passagem pelo Brasil, construído a partir de imagens amadoras registradas pelos fãs através do celular é prova disso, com centenas de trechos de vídeo enviados de diversos países e cerca de 24 mil visualizações no You Tube. “Quando eu iniciei o projeto eu fiz um site e divulguei em redes sociais, depois não precisei fazer mais nada, apenas recebia o material que as pessoas enviavam”, declarou Andrews.

Embora tenha balançado o cenário musical e a imprensa especializada, o Rain Down não é um divisor de águas. Segundo o próprio Andrews, a banda Nine Inch Nails já havia feito algo semelhante: “O vocalista da banda filmou quatro shows e disponibilizou para os fãs fazerem o DVD. Ele saiu da gravadora e não podia lançar o material porque algumas músicas faziam parte do contrato. Ele liberou as filmagens para os fãs editarem e eu participei da elaboração das legendas. Pessoas de diversos países colaboraram, mas o trabalho levou um ano para ficar pronto.”

andrewsfgO Nine Inch Nails não foi a única banda a levar a sério a proposta colaborativa de divulgação na internet. O próprio Radiohead “disponibilizou o CD para baixar e deixou os fãs decidirem quanto deveriam pagar”, explica Andrews. Na MPB, o cantor e compositor Gilberto Gil, possibilitou em seu site que os fãs produzirem vídeos de forma que todos tivessem acesso e  disponibilizou o CD gratuitamente para download. “É um cara que lidera este movimento da internet na MPB, que é um estilo que está sobrevivendo. Ele tem umas ideias muito loucas relacionadas à internet, que eu mesmo queria ter”, diz Andrews.

No quesito divulgação, as redes sociais surgem como bons artifícios para os grupos independentes: “Teve a fase do Orkut quando toda banda tinha um perfil, mas hoje não se usa mais para isso. O Myspace ainda é forte para as bandas porque possibilita colocar músicas sem precisar baixar ou procurar. O Facebook é bastante utilizado porque é forte e é no mundo inteiro, mas o Twitter é a grande bola da vez: é o curto e grosso da internet onde você consegue se atualizar em minutos. Nós também temos um canal de TV, que nada mais é do que os bastidores da banda, gravados com câmera de celular, mas bem editados”, afirma Andrews.

Em termos de produção musical, a internet também propõe diversas saídas: “A diferença de uma banda de gravadora para uma independente é simplesmente o som que ela toca. Tem grupos independentes com material gravado equivalentes às de estúdio. A diferença é que bandas como NX Zero e Fresno tem produção e vínculo comercial maior. Quem é independente e tem público e espaço, dificilmente vai para a gravadora. Como a Gloria que se sustenta no independente, mas é profissional e tem suporte, não é tão pequena assim. É claro que grupos de gravadora são mais equipados com infraestrutura, mas possuem um vínculo comercial completamente amarrado e as bandas se tornam meras funcionárias de quem contrata”, sinaliza Andrews.

Enquanto a rede propicia uma produção mais diferenciada, o espaço nas grandes mídias ainda se restringe: “Tem banda que nunca fez uma música e está fazendo sucesso porque apareceu na novela. Não há espaço para compositores, só se criarem um movimento, como aconteceu com a Legião Urbana e outras bandas que vieram de Brasília, que conseguiram espaço depois que as produtoras viram que deu certo. Mas hoje não existe isso, as bandas que tocam por aí passam batido”, conclui Andrews.

Embora a democracia da internet permita uma maior liberdade tanto de quem produz, quanto de quem ouve música, Andrews alerta: “sem internet banda independente não existe. O problema é que hoje você tem milhões de bandas, sendo muitas amadoras e fica difícil saber quem tem talento. A internet criou muito espaço e a qualidade foi afetada. Mas o meio independente sempre foi assim, as bandas existiam e ninguém sabia delas, agora as pessoas conhecem mais, todo mundo pode criar um site e divulgar seu trabalho.”

Além da disputa de mercados assinalada pelas grandes gravadoras, contrapondo com o aspecto libertário da internet, Andrews defende também que a produção e principalmente o consumo de música está relacionado à questão educacional: “O brasileiro não costuma discutir muito sobre o que ele gosta, ou se é bom ou ruim, ele é muito modista. Se alguma coisa está sendo ouvida por todo mundo ele vai ouvir e cantar também. Não vai refletir sobre aquilo, são poucos que fazem isso. Se você prestar atenção em algumas músicas que tocam por aí, dá até medo!” – exclama.

Questionado sobre as novas formas de produção e de distribuição musical, Andrews declara que o primeiro álbum do Refink, com previsão de lançamento para este ano, pretende trazer inovações: “Com certeza nós não faremos só um CD tradicional para entregar em porta de ‘barzinho’. Nós já temos bastante material produzido, mas tivemos problemas com o baterista e agora estamos gravando com bateria eletrônica e procurando um substituto. É difícil, pois o tempo que nos sobra é curto e não trabalhamos integralmente com a banda. A ideia é distribuir pela internet, mas misturar com elementos de vídeo para cada música, não como um clipe, mas como algo para acompanhar a trilha sonora do CD, um conceito novo. Mas vamos vender também em formato físico para não morrer de fome.”
Link original: http://www.slrevistaeletronica.com.br/giro/o-rock-nacional-perdeu-a-identidade.html